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sábado, 8 de novembro de 2014

Como viver melhor em um mundo pior





Antônio era um sonhador. Tinha mulher, três filhos, morava numa pequena cidade mineira chamada Bocaiuva e estava sempre metendo o pé na estrada, em busca de uma vida melhor para ele e sua família. Um dia descobriu Brasília. Trocou a casa que o sogro dera para a filha por um caminhão, botou a criançada dentro e rumou. Seria o paraíso, mas foi o “outro lado”. O golpe dos militares em 1964 transformou o sonho em inferno para Antônio e sua família. Mas o filho do meio, Luiz Fernando Emediato, o Nando, tirou dessa experiência dura uma oportunidade. E escreveu “O outro lado do Paraíso”, livro autobiográfico, que agora virou filme dirigido por André Ristum. Antônio, seu pai na vida real, ganhou a bela interpretação de Eduardo Moscovis.

Sábado à noite, com um vento gelado da Lagoa atravessando o espaço de cinemas, o filme foi exibido em noite de gala no Festival do Rio, e eu, convidada, estive presente. É uma história emocionante, uma fotografia linda, atores (mirins, inclusive) interpretando muito bem seus papéis. O diretor não usa efeitos especiais, tem a voz de Milton Nascimento para embalar as paisagens mineiras. Não abusa de cenas violentas, mostra apenas as marcas da tortura sofrida pelo protagonista. Por isso mesmo, deixa espaço para reflexões.

Antônio tinha um sonho de liberdade, talvez muito maior do que o de oferecer uma vida mais confortável à família. E foi justamente a liberdade que perdeu, tornando-se mais infeliz e desmotivado, mesmo depois de ter sido solto. A truculência de soldados armados ainda fez outra vítima: a biblioteca da pequena comunidade onde moravam, montada por Luiz Fernando e a professora. O pequeno, que devorava livros como gente grande, foi assim duplamente atacado.

Antônio envergou, mas não se quebrou por inteiro. E continuou sendo o sonhador de sempre, crente em suas utopias. É como se ele soubesse que existe chance de ter um mundo melhor, mas não tivesse as ferramentas para buscar essa boa deriva.

O elenco esteve presente na noite de estreia. Entre os atores, Henrique Bernardes, um menino lindo que faz o papel do irmão de Nando (muito bem interpretado por Davi Galdeano). De terno preto e gravata borboleta vermelha, Henrique parecia ter se materializado, direto daquele cenário de sonhos da telona, e se colocado ali, na minha frente.

Vim pensando em Henrique na volta para casa. Sua ligação real com aquele passado de violência de um governo ditatorial e totalitário retratado no filme que encena é nenhuma, e ele nem imagina o quanto isso é bom. Neste domingo (5), quando acordou e pôs os pés nas ruas, pôde perceber a movimentação que um dia de eleições provoca nas cidades. Fenômeno que muitos de nós só pudemos apreciar na vida adulta por causa de tanto tempo de urnas lacradas pela ditadura no poder.

Por outro lado, o mundo de Henrique não será nada fácil. Se não terá que lutar contra um regime político violento, certamente vai ter dias bem duros, de muita escassez. Água e energia serão o pote de ouro do mundo de Henrique, assim como para nós e Antonio, seu pai na ficção, foi a liberdade.

Envolta nesses pensamentos, recebi por e-mail, de um amigo, o texto de uma entrevista feita pela jornalista e escritora Eliane Brum para o “El País” com o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro e sua mulher Debora Danowski, que acabam de lançar o livro “Há mundo por vir? – Ensaio sobre os medos e fins” (Editora Cultura e Barbárie). Foi nutriente certeiro para as minhas reflexões pós-filme.

Na entrevista, o casal comenta sobre todas as privações que a humanidade vai enfrentar mais e mais daqui por diante devido à escassez dos recursos naturais (vide a falta de água em São Paulo). E diz que os índios podem ter a capacidade de ensinar os brancos a viverem “melhor num mundo pior”. Leiam o trecho:

“Os índios podem nos ensinar a viver com pouco, a viver portátil, e a ser tecnologicamente polivalente e flexível, em vez de depender de megamáquinas de produção de energia e de consumo de energia como nós. Quando eu falo índio é índio aqui, na Austrália, o pessoal da Nova Guiné, esquimó... Para mim, índio são todas as grandes minorias que estão fora, de alguma maneira, dessa megamáquina do capitalismo, do consumo, da produção, do trabalho 24 horas por dia, sete dias por semana. Esses índios planetários nos ensinam a dispensar a existência das gigantescas máquinas de transcendência que são o Estado, de um lado, e o sistema do espetáculo do outro, o mercado transformado em imagem. Eu acho que os índios podem também nos ensinar a aceitar os imponderáveis, os imprevistos e os desastres da vida com o 'pessimismo alegre' (expressão usada originalmente pelo filósofo francês François Zourabichvili, com relação a Deleuze, mas que aqui ganha outros sentidos). O pessimismo alegre caracteriza a atitude vital dos índios e demais povos que vivem à margem da civilização bipolar que é a nossa, que está sempre oscilando entre um otimismo maníaco e um desespero melancólico. Os índios aceitam que nós somos mortais e que do mundo nada se leva.”

É sobre o “pessimismo alegre” que quero me deter. Trata-se de uma expressão que remete a viver o presente, o que é muito difícil para todos nós. Ou nossos pensamentos vão para um futuro, acreditando que ele será melhor do que os tempos que estamos vivendo hoje (como faz Antônio), ou fincam as raízes no passado e de lá não saem, fazendo do nosso dia a dia um mar de ressentimentos. Os índios, como ensina Eduardo Viveiros de Castro, são pessoas que, de fato, vivem no presente e no melhor sentido possível, enfrentando as dificuldades que ele apresenta, mas sem imaginar “que se tem poderes messiânicos, demiúrgicos de salvar o planeta”, disse o antropólogo à jornalista do “El País”.

A “festa da democracia”, como são chamadas as eleições, acontece de quatro em quatro anos. É quando o cidadão comum se reveste de poder e vai para as urnas “mandar” no destino dos políticos. Seria bom se fosse também um momento para pensar melhor, não só em todos os interesses envolvidos nas eleições, como naquilo que não está sendo dito pelos candidatos e naquilo que deveria estar sendo dito. O futuro do país, do mundo, não depende só de indicadores econômicos ou sociais. Depende, e muito, de um olhar criterioso para o que vem sendo tirado da natureza para ajudar a manter esses índices.

“O ambiente, o clima, a atmosfera estão mudando muito mais depressa do que o capitalismo”, afirma Eduardo. Na entrevista, o antropólogo se permite sonhar um pouco e reafirma uma teoria que eu, como repórter, venho ouvindo recorrentemente de outros especialistas que tenho lido ou entrevistado. Ele fala em “pequenos bolsos alternativos de deserção”, uma espécie de “indianização”, que luta pelo mínimo de autossuficiência local. “Com ênfase no município, na comunidade, nos governos locais, nos arranjos locais, no transporte de curta distância, no consumo de produtos produzidos não muito longe de casa”, acrescenta ele.

De qualquer forma, os primeiros a sofrer os reveses das mudanças climáticas serão os pobres. Mas há uma dobra interessante no pensamento de Eduardo Viveiros. Segundo ele, os pobres poderão ser, também “os primeiros a se virar”.

Henrique vai ter, talvez, tanto trabalho quanto seu pai na ficção teve para viver. Mas em liberdade. Isso já será um ganho.

*Fotos: Divulgação e divulgação/Funai

http://g1.globo.com/natureza/blog/nova-etica-social/post/como-viver-melhor-em-um-mundo-pior.html

A diferença entre consumo e consumismo



Marcia me ajuda aqui na limpeza de casa de 15 em 15 dias. Semana passada, chegou feliz porque tinha conseguido comprar um carro depois de juntar dinheiro e de trabalhar muito duro, em várias casas, todos os dias da semana, inclusive aos sábados. Usando o carro para se deslocar, ela ganhou uma hora a mais no seu dia que, mesmo assim, precisa começar quando o sol aparece. Márcia mora num município da Baixada Fluminense e precisa enfrentar a hiper engarrafada Avenida Brasil. Mesmo com a faixa exclusiva de ônibus, aquela via sofre com a quantidade excessiva de carros.
Quando Marcia brandiu as chaves do seu automóvel, ano 2009, pensei em tudo aquilo que os estudiosos em clima e em desenvolvimento sustentável falam. Quanto maior o consumo, mais necessidade de energia, de combustível. Mas, sinceramente, em sã consciência, alguém diria para Marcia: “Você não devia ter comprado o carro porque estará ajudando o planeta a aquecer, o que vai causar mais tormentas como a que se viu na Região Serrana em 2011”? Não, é claro.

Comemorei junto, parabenizei pelo fato de ela não ter se endividado num interminável carnê. E alonguei meus pensamentos sobre o assunto, carentes de alguma razão que transforme a teoria em prática, até o evento desta terça-feira (7), em São Paulo, comemorativo dos cinco anos do Pacto pela Sustentabilidade e convocado pela rede de supermercados Walmart.

Estive como moderadora numa das mesas do evento. No final, quando os executivos já tinham exposto suas razões para assinarem um pacto que implica em iniciativas para ajudar a traçar uma linha mais consciente de desenvolvimento econômico, sugeri uma reflexão. Que eles dissessem pelo menos uma mudança que ajudaria o mundo a ser mais desejável de viver em 2050. Ligia Camargo, gerente de sustentabilidade da Unilever, disse que gostaria de reverter a noção, quase recorrente em nossos dias, de que o consumidor é um vilão. Consumir faz parte, é humano, afirmou a executiva. A questão é como consumir.
Penso que existe uma diferença muito grande entre consumo e consumismo. Marcia, minha ajudante, de fato não pode ser acusada de ser uma consumista inveterada por ter comprado um carro. Não posso dizer o mesmo de um vizinho que troca de automóvel uma vez por ano. E olha que ele só compra aqueles enormes, beberrões.

O Brasil saiu este ano do mapa da fome da FAO, organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura. Além disso, com a evolução de renda dos mais pobres, está também aumentando a base de consumidores. Há críticas nesse sentido, de especialistas que afirmam que o país está criando uma base de endividados. De qualquer maneira, se esses cidadãos que hoje já conseguem entrar para o mercado de consumo – e estão sendo recebidos de braços abertos – tiverem chance de se organizarem, como fez Marcia, juntando dinheiro no lugar de carnês, é possível que não se endividem.

Mas a questão é complexa, merece muito estudo, reflexão. Afinal, estamos falando do consumo também de energia que, como os cientistas já mostraram, será um bem de valor inestimável tanto quanto a água no futuro. Neste post, eu descrevi o mundo sustentável sonhado pelo ambientalista James Gustave Speth, onde o consumismo é trocado pela busca de coisas que realmente tragam bem-estar. É importante que se diga, ainda em defesa de Marcia, que se ela tivesse um meio de transporte público que permitisse um deslocamento sem sofrimento e em menos tempo, certamente seu dinheiro ficaria guardado para adquirir outros bens. Ou, quem sabe, viagens, um bom curso...
Assim, não depende, como vimos, apenas de um “consumo mais consciente”, expressão que tem se tornado recorrente. No caso dos automóveis, os governantes precisam ajudar, ampliando a chance de mobilidade urbana.

Como sempre faço, busquei pensadores que pudessem ampliar minha perspectiva sobre o assunto. Encontrei o artigo “Needs” no “The Development Dictionary”, editado por Wolfgang Sachs. Quem escreveu foi Ivan Iilich, filósofo e escritor austríaco morto em 2002, que faz uma crítica severa ao desenvolvimentismo.

O filósofo passeia pelas necessidades dos humanos, pontuando o momento em que elas se tornaram desejos. “É mais fácil jogar no lixo os aparelhos de ar condicionado ineficazes dos arranha-céus em São João de Porto Rico do que acabar com o anseio por um clima artificial”. A imagem serve para ilustrar o momento em que o homem deixa de considerar a hipótese de voltar a sentir o vento e o calor no rosto. Concordo com você, leitor, se está pensando que hoje é impossível pensar em sentir o calor no rosto sob uma temperatura de mais de 40 graus no Centro de uma cidade grande e de terno. Mas, veja: o filósofo acredita que tudo aquilo que se criou para sustentar a ideia de desenvolvimento (arranha-céus e ternos, inclusive) pode ser entendido como uma era que, a um custo muito grande, tem feito uma cerimônia global para celebrar “o fim da necessidade”.
“Escolas, hospitais, aeroportos, instituições mentais ou de correção, além da mídia, podem ser entendidas como redes de templos erguidas para santificar a desconstrução de necessidades e a reconstrução de desejos em seu lugar. Na era pré-industrial, para muita gente vivendo em culturas de subsistência, a vida era um aprendizado sobre o reconhecimento de limites que não podiam ser transpostos. O solo produzia apenas culturas conhecidas, a viagem para o mercado levava três dias, o filho poderia deduzir seu futuro a partir da vida do pai. Por necessidade só se entendia o que as necessidades devem ser. E, assim, tinham que ser suportadas”.

Com os poderes da ciência e da tecnologia, no entanto, afirma Iilich, surgiu a palavra desenvolvimento, que foi logo traduzida como uma promessa. E os desejos mudaram de status, se tornaram reivindicações quando a necessidade não é satisfeita. Nesse caso, viram falta.

Iilich traça ainda o caminho histórico do homem refletido no contexto de necessidades do discurso oficial de desenvolvimento que começou com o pronunciamento oficial do presidente norte-americano Harry Truman em 1949. Pela primeira vez foi dito que os países ricos deveriam ajudar os países pobres. A história mostra que essa ajuda, muitas vezes, veio acompanhada de uma contrapartida perversa. Hoje, se fala na ajuda dos países ricos aos que já estão perdendo terreno por causa do aumento dos oceanos causado, como já foi provado, pelo aquecimento do planeta. História que segue. E o debate ainda está só no começo.
*Foto: Kimberly White/Arquivo/Reuters
http://g1.globo.com/natureza/blog/nova-etica-social/post/diferenca-entre-consumo-e-consumismo.html

País vive mais um dilema: agricultura familiar ou agrocombustíveis?



É possível pensar em aumentar a produção de alimentos produzidos por famílias, dando assim oportunidade aos pequenos agricultores, e, ao mesmo tempo, dar força para as monoculturas que podem contribuir para a substituição de combustíveis fósseis por agrocombustíveis? Este é um, apenas um, dos enormes desafios socioambientais que o Brasil vem enfrentando.

Para comemorar o Dia Mundial da Alimentação, no dia 16 de outubro, a ONG ActionAid encomendou um estudo com este foco para o economista e consultor da Fundação de Atendimento Socioeducativo (Fase) Sergio Schlesinger, ao qual eu tive acesso. A principal conclusão do relatório é que o Programa Nacional do Biodiesel, lançado em 2004 com o objetivo de gerar renda para a agricultura familiar, não tem conseguido esse objetivo. O óleo de soja, produzido pelas grandes propriedades do agronegócio, é que tem sido a principal matéria-prima usada para a produção de biodiesel.

Dessa forma, ainda segundo o estudo, a produção brasileira de agrocombustíveis, que no início do século causou muita expectativa, hoje está baseada em duas grandes monoculturas, de soja e cana-de-açúcar. A previsão oficial para a safra 2013/14 de soja é de que a área plantada no país seja superior a 30 milhões de hectares, enquanto a cana-de-açúcar ocupa a terceira maior área cultivada do Brasil, com previsão de que ocupe 9,1 milhões de hectares na safra de 2014/15. São usinas grandes, que deixam aos pequenos produtores apenas a chance de se empregarem numa de suas plantas. 

É bom lembrar que este ano termina a moratória da soja, implementada em 2006, um pacto entre governo, organizações não governamentais e empresas com o objetivo de impedir a comercialização da soja vinda de áreas desmatadas da Amazônia. Com o fim do acordo, a monocultura de soja pode se alastrar ainda mais.

Segundo o relatório, a preocupação do governo brasileiro é que esta elevada dependência da soja “termine trazendo para o mercado de combustíveis a instabilidade das negociações internacionais relativas ao óleo de soja”.

Há outras opções para continuar investindo em agrocombustíveis, e isso fica claro no relatório. Um projeto de lei que institui um Zoneamento Agroecológico da cana-de-açúcar, por exemplo, proibindo a expansão e implantação de novas usinas de etanol ou açúcar na Amazônia, Pantanal e Bacia do Alto Paraguai, biomas sensíveis, está ainda em tramitação no Congresso Nacional. A ideia é evitar que áreas de vegetação primária sejam desmatadas para o cultivo da cana. Segundo o Imazon, instituto de pesquisas da Amazônia, o país tem 24 milhões de hectares de áreas degradadas que podem servir, perfeitamente, para o plantio. Por que não utilizá-las?

Outra sugestão é o etanol de milho. Como nos Estados Unidos, diz o relatório, duas usinas de cana-de-açúcar de Mato Grosso iniciaram recentemente a produção de etanol a partir do milho. “Além do etanol, para cada tonelada de milho utilizada há a produção de cerca de 240 quilos de grãos, com boa demanda no mercado de rações”.

No final do relatório há uma lista de recomendações que, sinceramente, nem precisariam ser feitas se houvesse um pensamento coletivo em prol da segurança alimentar, não apenas no sentido de expandir negócios no setor. Por exemplo: há a sugestão de se proibir o aterramento de terras úmidas e de bacias em áreas de cultivo e pastagem. Isso quer dizer que seria bom que os grandes fazendeiros parassem de jogar terra – às vezes até cimento – sobre nascentes e várzeas. Fazendo isso, eles causam a seca que, por exemplo, está agora afetando São Paulo.

Outra recomendação inacreditável que ainda precise ser feita em pleno século XXI é que seja proibido lançar agrotóxicos por aviões, “de modo a proteger populações, sua produção agrícola e os recursos hídricos vizinhos às áreas de monocultivos e de pastagem”. Há ainda a sugestão de que a venda e uso dos agrotóxicos e sementes transgênicas seja regulamentada e rigorosamente fiscalizada “como medida para proteger os territórios da agricultura familiar que adotam o ciclo de transição para a produção agroecológica dos alimentos”.

Traduzindo a recomendação: o agricultor faz tudo direito, planta sem uso de agrotóxicos para poder participar dos programas do governo que incentivam a agroecologia, como o PAA (Programa de Aquisição de Alimentos) e o PNAE (Programa Nacional de Alimentação Escolar). Mas o fazendeiro vizinho, dos grandes, decide usar o veneno em sua plantação para evitar praga e a droga é tão forte que contamina todo o solo, inclusive a cultura orgânica. As perdas frequentes de produção levam os agricultores a desistirem, como se lê no depoimento de Eliane, do assentamento Roseli Nunes, que fica no município Mirassol d’Oeste, no Mato Grosso, foco do estudo de Sergio Schlesinger:

“Aqui nós temos uma associação que trabalha na produção na horta sem usar veneno. Lutam na Agroecologia e estão organizados, mas a dificuldade é que não podemos conseguir o selo de produção orgânica por causa de todo esse veneno que é jogado no canavial da usina e que vem todo para o assentamento... Hoje estamos acessando as políticas públicas, mas enquanto estamos aqui pensando em um jeito natural de produzir, tem gente que não pensa assim e ainda prejudica a gente.”

Nessa luta dos gigantes contra os pequenos, nem mesmo as boas propostas governamentais têm espaço. O que prevalece é a ganância. Uma pena.

Quando leio sobre esse perigo do uso abusivo dos agrotóxicos, ainda ameaçando a saúde de todos nós, não posso deixar de me lembrar de Rachel Carson, bióloga norte-americana, pioneira na luta contra os venenos impostos à terra e à biodiversidade para conseguir uma produção maior de alimentos. Numa passagem do seu livro “Primavera silenciosa”, que só conseguiu editar em 1962, quase dez anos depois de escrito, Carson conta, de maneira emocionante, o processo de envenenamento dos inseticidas. Reproduzo abaixo:

“Esses inseticidas não são venenos seletivos; eles não isolam uma das espécies de que desejamos nos livrar. Cada um deles é usado pela simples razão de que é um veneno letal. Por conseguinte, ele envenena toda a vida com a qual entra em contato: o gato que é querido por uma família, o gado do fazendeiro, o coelho nas campinas e as cotovias nos céus. Esses animais jamais causaram mal algum ao ser humano. Apesar disso, o ser humano os recompensa com uma morte que não é apenas súbita, mas também horrível.”

A ActionAid faz o papel dela, divulgando o estudo e suas recomendações. O governo federal vem fazendo também um bom papel, com atenção para os pequenos produtores. Medidas como o Pronaf (Programa Nacional de Fortalecimento de Agricultura Familiar), que só nos três últimos meses da safra 2014/15 emprestou R$ 8,3 bilhões em linhas de crédito direto aos agricultores familiares, têm sido responsáveis pelo fato de que, hoje, 70% da comida servida nas mesas dos brasileiros venham dessa produção.

Para que ela seja saudável, porém, precisa ser agroecológica e depende, aí, de vizinhos menos perigosos.

*Foto: Reprodução/EPTV
http://g1.globo.com/natureza/blog/nova-etica-social/post/pais-vive-mais-um-dilema-agricultura-familiar-ou-agrocombustiveis.html

Alemanha tem pacote ambicioso para virar uma economia de baixo carbono


Berlim se vende o tempo todo como uma cidade dos contrastes, que está construindo um novo futuro. Não é para menos. As construções estão em cada esquina. Parece impossível tornar a cidade ainda mais linda, mas eles vão conseguir. Até um castelo estão reconstruindo.

Os contrastes eram bem evidentes há 25 anos, quando o Muro de Berlim foi destruído e unificou duas ideologias, dois sistemas econômicos bem distintos. Hoje eles ainda existem, mas menos visíveis, na forma como o governo da Alemanha está pensando em escrever sua história no futuro, planejando uma economia de baixo carbono e sem uso de energia nuclear.

O consumo excessivo, imposto por um padrão alto e hábitos sofisticados, colocou o país entre os maiores poluidores do mundo. E a primeira coisa que chama a atenção de uma pessoa conectada com o tema do meio ambiente quando o avião sobrevoa Berlim é, justamente, a fumaça branca de uma usina de carvão. A imagem é forte. Como se sabe, o carvão é altamente poluente e foi uma das questões que impulsionou o debate em Estocolmo, na primeira Conferência Mundial de Meio Ambiente em 1972. E aquela fumaça branca sendo expelida por enormes torres de longe parece bem perto de turbinas geradoras de energia eólica, também frequentes na paisagem.

Esse é um contraste que não ajuda em nada o país a trilhar o caminho que está escolhendo. Se depender dos ambientalistas que estão no governo, a Alemanha vai liderar a conferência global do meio ambiente que vai acontecer em Paris em 2015, mostrando o pacote mais ambicioso de medidas rumo a uma economia de baixo carbono.

Na terça (14) pela manhã, com um clima ameno e um dia claro, que têm favorecido muito a viagem tão corrida, estivemos no escritório onde funciona o Ministério para o Meio Ambiente, Conservação da Natureza, Construções e Energia Nuclear e fomos recebido por um assessor do ministro, Simon Marr. Ele preferiu não gravar entrevista justamente porque não estava ali falando em nome da pasta, mas foi muito gentil e fez uma apresentação sobre o que é o programa alemão de baixo carbono. Muito do que escrevi no post anterior faz parte do projeto e, segundo Marr, as iniciativas são corajosas e vão precisar ser encaradas muito seriamente pelos políticos para que realmente deem certo.

A medida mais ousada será tirar para sempre da vida dos alemães a energia nuclear a partir de 2022. Nesse sentido, o acidente que ocorreu em Fukushima, no Japão, em 2011, está servindo como exemplo do que pode acontecer com os alemães se continuarem a se arriscar. O carvão também vai ser diminuído, e a ideia será seguir o exemplo de países como Estados Unidos e Reino Unido, incentivando a captura e o sequestro do carbono. Simon Marr fez um adendo, lembrando que Alemanha tem como vizinha a Polônia, país cuja economia é extremamente dependente do carvão. Incentivá-los a deixar essa prática também é uma medida proposta e árdua, para dizer o mínimo.

De fato, uma das tarefas mais delicadas do programa alemão será convencer os outros ministros de que, mesmo num momento em que há um desconforto econômico no país, será preciso investir dinheiro para subsidiar a indústria local no sentido de ajudá-la a criar tecnologias para tais medidas. Até onde eu percebi na fala do assessor, não será muito fácil, embora haja o comprometimento de alguns. Fato é que o rascunho do projeto já está pronto e será mostrado a cada um neste mês e em novembro. A mensagem principal é que será cada vez mais lucrativo ter uma energia mais limpa. Mas é um assunto delicado.

O clássico “comando e controle”, sistema que pune e vigia no capitalismo, não é suficiente aqui, acredita Marr. Na hora em que ele falou sobre isso eu me lembrei da entrevista que fiz em 2007 com a ex-primeira ministra da Noruega Gro Brundtland, quando ela esteve no Brasil. Ela foi responsável pelo primeiro relatório assinado por 21 países industrializados, reconhecendo a necessidade de se caminhar por outro tipo de desenvolvimento, diferente daquele que vinha sendo empregado até então. O relatório Brundtland foi publicado em 1987 e chamou-se “Nosso Futuro Comum”. Quando perguntei a Brundtland como ela tinha conseguido fazer com que as empresas baixassem suas emissões, ela me respondeu de maneira curta e direta: “Cobramos multas daquelas que não fizeram seu dever”.

Quase 30 anos depois, a Alemanha não pretende punir aqueles que não empregarem tecnologias para ajudar o país a baixar emissões. Antes disso, será preciso que o governo invista dinheiro e pague para que as empresas façam o que deve ser feito e que, no fim das contas, vai acabar sendo bom para todos. A proposta é que aquelas que não fizerem nada, mesmo com o incentivo, sejam retiradas da lista de beneficiadas.

Somos dezesseis pessoas no grupo, de diferentes nacionalidades, de diferentes profissões. A viagem toda foi organizada pelo instituto Ecologic, cujo interesse é fomentar esse tipo de debate com outras pessoas para que seja possível trocar experiências. Nesta terça à noite, depois do jantar, saímos para uma caminhada pelas redondezas do hotel e conversamos sobre este novo modelo civilizatório que parece estar já espancando, não mais batendo, à porta dos países sem que, de fato, alguém lhe libere completamente a entrada.

Não há como negar que o clima está mudando, que o aquecimento é resultado direto das emissões de gases e que o resultado disso nós já estamos assistindo, sob a forma de eventos extremos catastróficos. Para os países ricos, como a Alemanha, que não questionam o modelo econômico, a saída é mostrar ao mundo financeiro e corporativo que será possível investir e continuar lucrando, mesmo optando por fontes renováveis de energia.

A segunda tarefa delicada será convencer os consumidores a mudarem seus hábitos. Se isso é difícil aqui, no mundo dos países industrializados, onde todo o conforto já foi garantido às populações, imaginem nos países pobres, onde só agora as pessoas estão começando a ter acesso a bens e serviços melhores. A questão da mobilidade urbana ilustra bem isso. Sair do aeroporto em Berlim e chegar a qualquer canto da cidade é extremamente fácil porque tem transporte ferroviário eficiente. Assim mesmo, muita gente ainda prefere o carro. Pensando no nosso modelo de transporte urbano caro e totalmente ineficiente, fica fácil entender que o desafio é grande.

Continuo por aqui. Hoje, quarta-feira, já há novos encontros agendados com outros especialistas. O debate segue em frente e vou dando notícias. Até sexta-feira.

*Fotos: Amelia Gozalez

**A jornalista viajou a convite do consulado da Alemanha.

http://g1.globo.com/natureza/blog/nova-etica-social/post/alemanha-tem-pacote-ambicioso-para-virar-uma-economia-de-baixo-carbono.html

Eficiência energética europeia depende, como tudo, do sistema econômico


Acabara de chegar ao aeroporto de Frankfurt depois de duas viagens de trem tumultuadas. Na verdade, foi quase uma aventura. Os maquinistas tinham marcado uma greve para este fim de semana, e todo mundo decidiu se antecipar e pegar trens na sexta-feira (17). Os alemães comuns usam bastante este sistema de transporte, e lá estava eu, espremida num vagão lotado, tentando espichar o pescoço para ver um pouco a paisagem passando depressa pelas janelas, com uma mala pesando 25 quilos, uma mochila com o netbook e outra bolsa de mão com livros e papéis que recolhi neste tempo de mergulho em eficiência energética alemã (veja aqui e aqui). Minha mala, é claro, tem rodinhas. Mas elas não servem para nada quando é preciso subir ou descer escadas para entrar no trem ou andar pelas plataformas com chão de pedra. OK, eu deveria ter me precavido...

De Bonn fui para Cologne e, graças à simpatia do pessoal que dividia comigo o espaço superlotado, desci na estação certa, a Central, não a do Norte ou Sul. Um equívoco naquela hora teria sido um desastre, porque o outro trem partiria em 20 minutos e eu tive que andar bastante até a plataforma dele. Carregando peso, não se esqueçam... Mas, é importante deixar registrado: ainda assim acho que os trens são, de verdade, o melhor meio de transporte. Só é preciso se organizar melhor. Farei isso na próxima viagem.

Mas deu tudo certo e, chegando ao aeroporto, exausta, depois de fazer o check-in, decidi sentar-me numa lanchonete, relaxar e comer um sanduíche antes do voo que só sairia em uma hora. Estava com meu pensamento meio entorpecido, mas alguma coisa me chamou a atenção naquele homem que seguia de mesa em mesa, com um copo de refrigerante grande nas mãos. Sua maneira de vestir não destoava muito, tinha um cabelo comprido amarrado em rabo de cavalo, era louro de olhos azuis. Só quando ele chegou mais perto é que percebi tratar-se de um mendigo. O copo servia para recolher as moedas que alguns davam, outros não.

Não desviei o olhar, mesmo quando chegou perto. E dei-lhe uma moeda de 2 euros. Agradeceu em alemão e respondi, em português, que não falava sua língua. Tomou um susto, mas deu de ombros e continuou sua peregrinação.

Ainda com pensamentos embaralhados, catei na memória os sem-teto que encontrei pelo meu rápido e curto caminho pela Alemanha. Não foram tão poucos assim. Isso retrata um sistema econômico em crise? Sim e não. Mas, como dizia Hannah Arendt, não se pode desperdiçar um pensamento porque um dia ele pode ser útil. Nesse caso, a situação econômica do continente europeu, que se reflete também num alto índice de desemprego, é o link que eu gostaria para contar sobre nossa visita à deputada Annalena Baerbock, do Partido Verde, organizada pela equipe do Instituto Ecológico.

Chegamos ao prédio do parlamento alemão, reconstruído no final do século passado e hoje aberto à visitação turística, no momento exato em que a sirene tocou, chamando os deputados para uma votação. Esperamos pouco tempo na sala onde Baerbock conversaria conosco e a expectativa era de que a votação tivesse algo a ver com o programa energético que prevê a redução dos gases do efeito estufa em até 80% até 2050. Não tinha. A chanceler Ângela Merkel havia feito um pronunciamento, mas também não fizera nenhuma menção às fontes renováveis de energia que vão precisar ser usadas para que esta meta tão ousada seja alcançada.

A frustração foi maior porque na semana que começa nesta segunda-feira (20) vai haver votação da nova Comissão Europeia. Além disso, na quinta (23) e sexta (24) vai haver uma Conferência Europeia, e os deputados debaterão os temas que vão ser prioritários para o próximo ano. As metas para baixar as emissões trocando as fontes de energia não estão entre eles. Mas a situação econômica da Europa, sim.
Annalena Baerbock não pareceu muito animada, mas afirmou que o plano alemão (veja aqui) é ambicioso e é necessário: “Para mantermos em apenas dois graus o aquecimento global precisamos baixar as emissões. Há um consenso entre todos os partidos de que precisamos ter uma agenda verde e 80% dos cidadãos também são favoráveis”, disse a deputada.

Mudança lenta
Sendo assim, o que estaria impedindo que esse tema realmente ocupe as prioridades na hora de fazer planos políticos para o futuro? “A questão, como sempre, é o dinheiro. Há muitos investidores que puseram dinheiro nas usinas de carvão e não querem perder. Por isso sabemos que a mudança vai ter que ser lenta.”
Reforçando o que disse a deputada, na parte da manhã daquele mesmo dia fomos ao escritório e ouvimos uma pequena explanação na sede da ONG Amigos da Terra, muito influente na Alemanha, onde foi reiterado que o assunto que tem movido o país é, de fato, o econômico.

Quarenta e seis por cento da energia do país vêm do carvão e, por isso, há subsídios do governo para as usinas, uma indústria poderosa no país que gera cerca de dois mil empregos.

“É difícil influenciar essa maioria. Precisamos influenciar o setor de energia em algo mais flexível, queremos as usinas de carvão fora do mercado para que as outras, como a de lignito (tipo de carvão que tem muito mais carbono em sua composição, mas é mais fácil e mais barato de extrair) possam concorrer, o que não acontece hoje. Se os preços fossem reais, o lignito não teria que ser mais barato”, disse uma executiva da ONG. Afinal, é mais poluente: as nove usinas de lignito produzem 20% de todo o carbono emitido no país.

A proposta alemã é muito boa no papel. Mas não há, concretamente, dia e hora para começar. A deputada lembra isso e arremata: “Precisamos começar a falar do tempo. Quando a reforma vai começar?”
Annalena Baerbock também lembra que é um enorme desafio fazer uma política de energia para toda a Europa porque os países são diferentes e têm relação com os recursos naturais também diferentes. Holanda, por exemplo, não tem usinas de carvão, investe em gás natural, mas acaba importando carvão da Alemanha. A Áustria investe mais em hidroeletricidade porque tem chance para isso. Na Noruega, 30% da energia vêm do gás natural.

Quanto às fontes renováveis de energia – solar, eólica, geotérmica, hidrelétrica, biomassa e oceano – sobre as quais muito ouvimos na nossa viagem, a conclusão é que elas não são populares porque são consideradas caras. “Precisamos da opinião pública sim, mas precisamos também que as políticas sejam implementadas”, diz a deputada.

Em números reais, o cenário atual se apresenta assim: a dependência alemã do carvão aumentou em 55% com relação ao ano 2000. A União Europeia importa 27% de gás natural da Rússia e gasta 1 bilhão de euros para importar 53% de combustível fóssil (a Dinamarca é o país mais independente). Cinquenta por cento da energia usada na Alemanha são para aquecimento das casas e na União Europeia essa porcentagem não é muito diferente (40%). Fala-se muito na CCS, uma geoengenharia que captura e armazena o carbono na terra, mas é uma iniciativa muito cara e questionada por especialistas que se perguntam: quem garante que esse carbono vai permanecer enterrado?

Volto ao homem que pedia dinheiro com um copo de refrigerante no aeroporto de Frankfurt, sede de importantes instituições financeiras, entre elas o Banco Central Europeu. Não me parecia ter um transtorno mental, estava mais para alguém que perdeu o emprego e não conseguiu ser reincorporado ao sistema, como 12% da população europeia. Um dos muitos palestrantes que ouvimos terminou sua fala com uma verdade bem inconveniente de ouvir:

“Sim, as energias renováveis são a única opção segura para se manter o nível de aquecimento em dois graus. Mas, agora eu lhes pergunto: um dono de usina de carvão que está no ramo há mais de 40 anos, de um dia para o outro recebe do governo a ordem de fechar as portas, não vai querer subsídios para o resto da vida por ficar parado? E o desemprego que vai causar?”

Viajei de volta num trem de pensamentos, tentando espremer uma síntese de tudo o que ouvi. Cheguei à conclusão de que é impossível concluir. Nada é 100% certo ou errado, bom ou mau em nossos dias. E o mercado, com suas regras tão fixas e pré-determinadas, vai ter que se adequar mais e ser mais flexível. Seja como for, precisamos de mais reflexões do que discussões. Nesse sentido, foi muito útil a minha viagem.


*Foto: Amelia Gonzalez/G1
http://g1.globo.com/natureza/blog/nova-etica-social/post/eficiencia-energetica-europeia-depende-como-tudo-do-sistema-economico.html

Filme sobre evento Humanidade 2012 traz reflexões a respeito do futuro do planeta


“A linguagem não é mesmo feita para que se acredite nela, mas para obedecer e fazer obedecer. A indiferença dos comunicados em relação a qualquer credibilidade, frequentemente beira a provocação.”

O filósofo francês Gilles Deleuze, pensador morto em 1995 que ousou contestar os intestinos do sistema, questiona sobretudo a linguagem, como se vê acima, em trechos tirados de “Capitalismo e Esquizofrenia”, volume 2. É simples e complexo perceber seu pensamento. Deleuze apostava na força de cada indivíduo. Para ele, humanidade é uma expressão que não transmite o que é preciso: o ser singular. “É a unidade que produz a diversidade”, dizia. Assim também, a linguagem para ele só existe através das diferentes línguas, não pode ser considerada um bloco junto e coeso.

Não por acaso Deleuze está no filme “Humanidade 2012”, que a diretora Bia Lessa prefere chamar de documento, não de documentário. As imagens foram captadas no projeto homônimo que aconteceu no Rio de Janeiro, paralelamente à Conferência Rio+20 em 2012, em que a atriz uniu empresários, políticos, atores, músicos, enfim, pessoas de vários matizes para pensarem, juntos, sobre o futuro desse planeta que anda nos impondo reflexões. Em várias linguagens, em diferentes línguas.

Nesse documento, patrocinado pela Firjan, Sesi e Senai, Escola de Cinema Darcy Ribeiro e Fábrica da Imagem, quase todos tiveram seu espaço. De um modo sutil, sem interferências editoriais, deixa patente, lembrando outro filósofo, Robert Musil, de “O Homem sem Qualidades”, que “palavras são como macacos, vivem pulando de galho em galho”. Sustentabilidade, humanidade, aquecimento global, economia verde, entorno, responsabilidade, planeta, justo, social, cultura, respeito... Ditas em discursos que podem parecer coerentes a ouvidos anestesiados pelo momento, por um jogo de luzes, pela música certa, são palavras que atingem o que o palestrante quer. Mas, que se vá buscar a unidade, o sentido, o verdadeiro... Muitas vezes, será em vão.

Bia Lessa percebeu que quando acabou o projeto Humanidade, que ocupou um espaço lindo ali no fim do Posto Seis, na Praia de Copacabana, os discursos ainda estavam setorizados.

“Faltava dar uma forma, ter o que aquelas pessoas falaram num documento, por isso prefiro chamar de documento, não de documentário. Nossos discursos carecem de praticidade. E há pessoas que falam muito bem no filme, como o Boaventura (sociólogo Boaventura de Souza Santos) que alertou para o fato de que está havendo uma comercialização de tudo, até da sustentabilidade”, disse a diretora. O filme foi lançado num evento na quarta-feira passada (14) e agora o trabalho será organizar no sentido de levá-lo à exibição nacional e disponibilizá-lo na internet.*

Para quem está, como eu, mergulhada no tema sustentabilidade há anos, não é novidade ouvir a teoria tão distanciada da prática em alguns dos discursos.

Como quando o empresário Eike Batista, hoje alvo de denúncias de crimes contra o mercado financeiro, usa o microfone para anunciar a “gestão integrada de território”, projeto para ele muito bem sucedido em sua empresa. Cita como exemplo de tal gestão o entorno do Porto do Açu, em São João da Barra, no norte-fluminense, e termina dizendo: “Não posso ver um futuro com favelas ali que, na verdade, fui eu que criei. Nosso projeto vem funcionando muito bem”.

Na reportagem “Porto do Açu, um novo latifúndio”, publicada um ano depois no site do Canal Ibase – do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas –, mostra uma realidade bem diferente. A comunidade foi atingida, com cerca de 1.500 famílias impactadas. Sem diálogo, sem responsabilidade com o entorno. Talvez mais concernente à fala de outro empresário, Eliezer Batista, pai de Eike, que defende no filme: “Esse entorno dos grandes projetos não é responsabilidade nossa. Mesmo porque, em alguns casos, se você começa a tomar medidas exigidas pela população do entorno, o projeto pode se tornar inviável”.

Interessante notar o emprego do pronome de tratamento na terceira pessoa para referir a si próprio. A prática, que leva a um distanciamento da ação, é usada na maioria dos discursos feitos por outros executivos durante o filme.

Bia Lessa escolheu dar espaço também para as empresas de alimentos, consideradas pelo “meio sustentável” as grandes vilãs da segurança alimentar por fazerem uso de defensivos agrícolas, para muitos um eufemismo. São venenos, inseticidas, produtos tóxicos que têm no Brasil um campo fértil (somos o país que mais consome) e na fome a desculpa que faltava. Tais corporações acreditam que só com a possibilidade de usar química para eliminar as pragas é que se conseguirá alimentar hoje os 7 bilhões de habitantes, amanhã os 9 ou 10 bilhões.

Uma das marcas se vangloria pelo fato de que 20% do frango de todo o mundo são comercializados por ela: 7 milhões abatidos por dia. E a empresa cuida de tudo: do grão que o bicho vai consumir antes de ser abatido ao abate, ao esquartejamento para caber em embalagens que vão parar nas gôndolas dos supermercados. Há quem se incomode muito justamente com isso. A ave, ou o porco, ou o boi, comem apenas aquilo que os técnicos pagos pela empresa acreditam ser a melhor refeição para a engorda. Só produtos processados. Por tabela, quem compra e come também está ingerindo essa química.

Outro personagem do mundo dos alimentos processados evoca o direito de escolha de cada um e usa as palavras para alertar a plateia: “Não estamos em condições de dispersar nenhuma tecnologia”. Novo eufemismo é empregado: o melhoramento genético, espécie de milagre do mundo moderno para tornar a Terra capaz de alimentar tanta gente.

Sergio Besserman, economista, ambientalista, aparece logo depois e atenua a auto-conclamada dose de responsabilidade sobre tais ombros. Ninguém tem fome por falta de alimento nesse mundo, mas por desigualdade social. Só naquele ano, foram desperdiçadas 1,3 bilhão de toneladas de alimento no mundo. E acrescenta um dado que é desprezado nos discursos sobre as maravilhas dos alimentos não naturais: o nitrogênio está na base dessa tecnologia para modificar tais produtos. Segundo os últimos relatórios científicos, nos últimos cinco anos o planeta está mostrando esgotamento também em sua capacidade de reciclar esse gás.

A chef Roberta Sudbrack, conhecida por sua habilidade em fazer pratos simples e gostosos, usando nada de métodos ultramodernos, arremata o assunto de maneira também simples. Sua fala exprime leveza. Para ela, a solução é trabalhar o ingrediente como ele veio ao mundo. “Que eu não precise forçar a barra nem de trabalhar com alguma coisa que eu não tenha naquele momento nem de fazer um cardápio que eu precise impor condições para a natureza. O moderno é arranjar uma forma de agredir cada vez menos e respeitar quem planta, quem colhe, a sazonalidade”, diz ela.

Modernidade, outra palavra que ganha contornos variados. O crítico de cinema José Carlos Avellar lembra que a produção industrial gerou duas figuras emblemáticas de uma era no cinema. “King Kong”, lançado na década de 30, caracterizava um personagem da natureza que punha em perigo os cidadãos urbanos. Já “Godzila”, exibido no final do século XX, é um monstro que saía do mar para atacar porque fora afetado pela irradiação. A experiência do bombardeamento atômico das cidades de Hiroshima e Nagasaki influenciaram o drama. Cada filme, em sua época, era moderno.

E quanto mais eu escrevo, mais detalhes do documento me vêm à cabeça. Na conversa com Bia Lessa, contei-lhe que comecei a assistir ao filme no domingo à noite pensando em desligar em seguida e recomeçar no dia seguinte. Mas fui direto. Em alguns momentos tensa, em outros aliviada, ia renovando os sentidos, refletindo sobre a incapacidade de se ser taxativo sobre um tema tão complexo. Com um detalhe saboroso: o filme é embalado por músicas cantadas por Caetano Veloso, Fernanda Takai, Os Ritmistas...

Cerca de 210 mil pessoas estiveram no projeto Humanidade 2012, e sabe-se lá o quanto cada um saiu afetado por tudo o que estava assistindo, lendo. Impossível perceber a unidade sem fazer contato com cada um. Diferentemente de Deleuze, que não dá importância ao simbólico e não acredita numa única solução para problemas tão diferenciados, o psicanalista Benilson Bezerra Jr. convida a refletir sobre sonhos e sugere uma solução:

“O mundo não vai mudar se a gente não começar a mudar a nossa concepção do que é ser humano, do que seja ser parte dessa coletividade chamada Humanidade”.


*Mais informações sobre quando o filme estará disponível podem ser conseguidas pelo email bia.bitrica@gmail.com


*Foto: 
Instalação do evento Humanidade 2012 (Marcos de Paula/Agência Estado/Arquivo)
Sala do evento Humanidade 2012 (Alexandre Durão/G1/Arquivo)

http://g1.globo.com/natureza/blog/nova-etica-social/post/filme-sobre-evento-humanidade-2012-traz-reflexoes-respeito-do-futuro-do-planeta.html

Em tempos de escassez, é papel de todos economizar água – inclusive da indústria

Enquanto lia, deixei cozinhando um macarrão no fogo. Distraída, não senti o cheiro e, quando vi, a panela já estava bem queimada. Para tirar o cheiro e o queimado é preciso que a panela fique de molho e tem que trocar a água várias vezes. Dei meu jeito para evitar o desperdício: estoquei num balde a água que eu ia trocando. Com algum detergente, há de servir para lavar o chão da varanda quando for preciso.

Ligo a máquina de lavar de 15 em 15 dias, ampliei o espaço de tempo também do banho dos cachorros e não gasto mais do que cinco minutos no meu banho, fechando a torneira para ensaboar. A mesma coisa na hora de escovar os dentes, lavar louça etc. Mesmo gostando muito de plantas, hoje só tenho dois vasos pequenos de espécies que não precisam ser aguadas diariamente.

Tudo isso faço há muito tempo, há mais de dez anos, desde quando os jornalistas que estudam o tema da sustentabilidade, como eu, ainda eram chamados de alarmistas ao anunciarem que a água ia começar a faltar em breve.
Leio agora que o Ministério Público Federal está lançando uma campanha nacional chamada “No Fluxo da Vida Cada Gota Conta” para tentar promover uma mudança de hábito dos cidadãos com relação aos recursos hídricos. Já era tempo. As chuvas estão perdendo a força que tinham de promover estoque de água e não foram poucos os desperdícios, o uso irresponsável, a perversa medida de cimentar nascentes de rios para construir empreendimentos. Ver a foto da salinização do Rio Paraíba do Sul, para mim, foi um choque. Fiquei imaginando como deve ser para as populações dos pequenos países-ilha do Oceano Pacífico que estão ameaçados de desaparecerem por inteiro e já têm um território agrícola cada vez menor justamente porque as terras estão ficando salgadas.

Apesar de ser extremamente útil a campanha para conscientização da população no sentido de poupar água, não depende só dos cidadãos comuns. Nem de governos exclusivamente. É preciso também trazer para o centro da mesa de discussões a indústria. As grandes empresas de alimentos e bebidas, setor que, juntamente com a pecuária e a mineração, mais depende da água, já têm se posicionado a respeito há algum tempo. Anunciam publicamente seus incentivos para reuso da água como boas políticas, mas até agora fizeram isso quase como propaganda, para mostrar que trabalham em prol de um futuro sustentável. 

Infelizmente, nesse caso, o futuro é agora. Já não é mais uma questão de opção. Se não fizerem isso, seu negócio vai sofrer um baque.

E também já não adianta muito apontar culpados, mas avaliar se as medidas tomadas, falo dos cidadãos comuns, dos governos e das empresas, vão ter bons resultados para enfrentar a seca que não parece estar muito perto de acabar. Li ontem, numa das inúmeras reportagens a respeito, que mesmo com uma boa quantidade de chuva que está sendo aguardada para novembro e janeiro, vai ser preciso que a água encharque a reserva da Cantareira antes de começar a encher.

Fui ao site da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), onde há a notícia de que os empresários enviaram um documento à Agência Nacional das Águas (ANA) pedindo regras mais operacionais para o uso da água das bacias Piracicaba, Capivari e Jundiaí, as três afetadas pelo Sistema Cantareira. No meio do texto dessa nota está explícito o dilema: “O setor reconhece que o regime de racionamento é uma decisão técnica necessária, mas que precisa garantir as questões de segurança operacional das plantas industriais”.

Ainda de acordo com o comunicado, 95% das indústrias de São Paulo são de micro e pequeno porte e utilizam a rede pública de água. Nas bacias citadas, mais o Alto Tietê, há 56 mil estabelecimentos, sendo 326 indústrias de grande porte. Muitas captam água diretamente dos rios e, por causa disso, estão sendo diretamente afetadas pela seca, que o texto prefere chamar de “atual crise de abastecimento”. A maioria delas adota práticas de reuso há mais de dez anos, justamente quando se começou a falar em mudanças climáticas.

Fato é que um conjunto de situações perversas – pouca chuva, consequência de mudanças climáticas tão anunciadas pelos cientistas e tão pouco levadas em consideração, com uso irresponsável de água – nos deixou na situação que estamos hoje. Os moradores de Itu, no interior paulista, há oito meses experimentam a mesma sensação que as populações nordestinas no passado, quando não havia um governo com olhar cuidadoso para a região. Entre outras coisas, lá foram criadas as cisternas rurais. Não custa pensar numa espécie de cisterna urbana, não só particular, de casa em casa, mas também nas cidades, criadas pela Prefeitura. Planejar plantio de árvores em praças também ajuda a segurar um pouco mais a chuva, como todos sabemos.

Para ir além da atitude solitária de reusar a água de uma panela queimada é isso mesmo que se precisa: inventar soluções. Com o intuito de colaborar para os cidadãos tomarem decisões, sobretudo na hora de consumir, a organização internacional Water Footprint elaborou uma série de mapas sobre a pegada hídrica – um indicador do uso da água – no período de 1996 a 2005 e concluiu que a agricultura ficou com 92%. E que um quinto da pegada hídrica global são para produtos para exportação. 

Visualizar o uso oculto da água em produtos pode ajudar a criar outras formas de economizar. Para produzir um quilo de carne, por exemplo, segundo um dos relatórios da Rede Water Footprint, são necessários 15 mil litros de água. A pegada hídrica de um hambúrguer de carne é de mil litros, enquanto para o hambúrguer de soja são necessários 160 litros.

Não é um conceito novo, mas talvez possa ser revisitado em tempos de escassez de água. Assim como acredito que sim, as empresas estão fazendo a sua parte. Mas será que não cabem mais iniciativas? Considerando que a agricultura usa tanta água, as grandes empresas de alimento e bebida, sobretudo aquelas que ostentam o título de “mais” isso e aquilo do mundo, deveriam estar agora reunindo todos os seus cérebros (os considerados espertos e aqueles que nem tanto) para criar outras tecnologias.

São tempos mais difíceis mesmo, que vão exigir de todos uma concentração na causa.

*Foto: Seca na represa Jaguari, em São Paulo (Luis Moura/Estadão Conteúdo)

http://g1.globo.com/natureza/blog/nova-etica-social/post/em-tempos-de-escassez-e-papel-de-todos-economizar-agua-inclusive-da-industria.html

Do lixo que produzimos à água que consumimos: o mundo exige mais atenção


Dia desses alguém me perguntou como eu definiria um jeito de viver de maneira mais sustentável. Respondi quase de pronto: é fazendo mais contato. Da água que sai da torneira ao lixo que se coloca ali na lixeira escondida no meio do corredor do prédio, passando pela luz que se acende no interruptor, hoje não dá mais para se deixar de pensar na origem e no destino de tudo o que se consome e rejeita. Dá mais trabalho, mas também traz mais consciência.

Estive pensando sobre isso ontem, quando atuei como mediadora num dos painéis da Conferência Cidades Verdes a convite da organização, a cargo da ONG Ondazul. O assunto era lixo. Antes de começar, tive a chance de conversar, no café, com o atual presidente da Companhia Municipal de Limpeza Urbana do Rio de Janeiro (Comlurb), Vinícius de Sá Roriz. Ex-executivo de uma multinacional, Vinícius me contou que antes de ser convidado a presidir a Comlurb, ele tinha uma relação com o lixo bem parecida com a da maioria de nós: “Punha ali na lixeira do prédio, fechava a porta e pronto, parava de pensar sobre o assunto, não era mais comigo”.

Sua experiência à frente da companhia de limpeza urbana de uma cidade que tem 6,5 milhões de habitantes e produz dez mil toneladas de resíduos por dia, no entanto, mudou bastante essa concepção.
“Um dos maiores desafios na minha gestão é, justamente, ajudar as pessoas a terem mais consciência sobre o lixo que produzem e o impacto que ele causa no ambiente”, disse ele.
Tadeu Caldas, da empresa de consultoria Ecotropic; João Wagner Silva Alves, que faz inventário de gases do efeito estufa para o estado de São Paulo e a deputada Aspásia Camargo, autora de várias leis sobre resíduos também estiveram no painel. Tadeu trouxe a experiência da Alemanha, país que conseguiu abolir os lixões definitivamente.

Em 1972, ano da primeira Conferência mundial do Meio Ambiente em Estocolmo, a Alemanha fechou 50 mil lixões. Desde então tem trabalhado em pesquisa e tecnologia para chegar à situação atual: o setor de resíduos virou um setor de sequestro de carbono e geração de energia, com o biogás. O carbono emitido por sete milhões de carros é sequestrado ali. Como estão reconstruindo muitos prédios para torná-los mais ecologicamente viáveis, sobretudo em Berlim, é impressionante a quantidade de resíduos gerada pela construção civil alemã. Mas uma parte vai para outras construções e outra parte é reutilizada para fazer estradas, por exemplo.

Cologne, cidade alemã com quase dois milhões de habitantes, contou ainda Tadeu, representa um caso específico de coleta, reciclagem e incineração. As emissões da compostagem dos resíduos orgânicos são recuperados, juntamente com as do incinerador, gerando energia para 25% das casas da cidade.
Não custa lembrar que sim, Alemanha é um país mais rico, mais velho... Mas alguma parte dessa tecnologia pode ser apreendida por nós, como deixou claro João Vagner Alves, engenheiro da Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental (Cetesb), ligada ao governo paulista. Os alemães estão tratando o metano – gás extremamente poluente produzido pelo lixo e pelo gado – em digestores aeróbicos verticais, uma inovação que está dando certo. É só copiar, sim, mas precisa ter recursos e pessoal com competência técnica. A segunda parte é mais fácil para nós, com certeza.

Já a deputada do PV Aspásia Camargo estava no painel também por ser uma das parlamentares mais dedicadas à causa (tem três leis sobre o lixo). Ela lamentou, no entanto, que há pouco mais de dez dias a Câmara dos Deputados aprovou uma Medida Provisória ampliando o prazo para fim dos lixões, que segundo a Política Nacional dos Resíduos Sólidos seria até agosto de 2014, para 2018. (veja aqui). A maioria dos municípios não conseguiu cumprir o que a lei previa.

O Rio de Janeiro, segundo Vinícius Roriz, destina quase 100% de seus resíduos para a Central de Tratamento de Resíduos em Seropédica. Havia um aterro em Gericinó, não controlado, que foi encerrado em maio. Mas a meta é diminuir em 25%, até 2018, a quantidade de resíduos enviados para as centrais.
“Essa meta tem uma outra, embutida, que é a redução de metano. Na última apuração que fizemos, o lixo é responsável por 14% das emissões de gases do efeito estufa da cidade, não só por causa do metano, mas também com também os caminhões que usamos, todos movidos a diesel. É um percentual importante, que vamos tentar baixar”, disse o presidente da Comlurb.

Onde era o aterro de Gramacho hoje há um local onde se trabalha no sentido de captar o metano e vendê-lo para a Petrobras, seguindo as regras rígidas da empresa. A ideia é levar também o gás gerado em Gericinó. Mas isso também ainda é pouco.
Na realidade de uma cidade como o Rio de Janeiro há ainda muitos locais onde o lixo nem mesmo é coletado, nas comunidades carentes. Para essas pessoas nem passa ainda pela cabeça a opção de reciclar seus resíduos, mas sim de tentar se livrar dos vetores de doença que uma quantidade considerável de detritos na porta de casa traz. Vinícius amenizou um pouco o problema numa das comunidades colocando grandes caçambas laranjas por perto para que a população tenha a opção de liberar ali seus detritos, o que ainda não é muita coisa.

“Eu não estou focando só nos meios de coleta porque é preciso ampliar para outras questões. Ampliar a coleta seletiva é importante, sim, mas veja bem: eu terei mais caminhões na rua, o que significa aumentar as emissões de carbono, transtornar ainda mais o trânsito. Tenho que pensar em compostagem, em aproveitar melhor o resíduo de podas que hoje está indo para Gericinó”, disse Vinícius.

É mesmo difícil imaginar tantos desafios, tantas questões que precisam de solução. Numa perspectiva macro, acabo me sentindo impotente, distante. Não conheço as tecnologias, não temos recursos, é difícil imaginar a vida de pessoas que moram em locais onde o lixo não é coletado... Numa perspectiva micro a coisa muda de figura.

Quando abri o painel contei uma história real que aconteceu comigo aqui na vizinhança na semana passada. Uma vizinha me perguntou qual o destino que eu dou para o meu lixo orgânico. As duas ficamos conjecturando sobre hipóteses, confessei que não tenho muita intimidade com a compostagem, e fazê-la num apartamento pode ser mais complicado, sobretudo porque tenho cachorros em casa e eles podem se sentir à vontade para invadir o espaço do lixo caso eu não consiga armazenar adequadamente. No fim da conversa, prometi que ia descobrir um meio e dividir com ela.

No mesmo dia, por uma incrível coincidência, descobri ali mesmo, perto do prédio, um pessoal da associação Bairro das Laranjeiras fazendo uma horta orgânica. Adorei, parei para conversar e, papo vai, papo vem, eles disseram que precisam do lixo orgânico para fazer adubo. Não precisei nem andar muito, pesquisar. Voltei para casa, interfonei para a vizinha, e já estamos todos em contato.

A isso eu chamo de microssolução. Mas só cheguei a ela porque, assim como minha vizinha, fiz contato com a destinação do lixo orgânico que produzo e fiquei mais atenta, a buscar alternativas. É um processo trabalhoso, mas é no que eu acredito.

(Foto: Jonathan Lins/G1)
http://g1.globo.com/natureza/blog/nova-etica-social/post/da-agua-ao-lixo-e-preciso-atencao-tudo-o-que-consumimos.html

Rede quer abrir caminho para projetos de consumo consciente na América Latina





A cidade peruana de Arequipa foi sede, no dia 19 de outubro, de uma reunião convocada pelo Global Research Forum on Sustainable Production and Consumption, plataforma criada na Rio+20 com o objetivo de dividir conhecimentos sobre economia e política tendo como base os novos desafios que a humanidade está enfrentando. A plataforma é mundial, mas houve uma articulação no sentido de regionalizar o debate e trazer as questões da América Latina especificamente, o que aconteceu em Arequipa, onde mais de mil pessoas estiveram reunidas.

O articulador dessa espécie de "rede dentro da rede" é Fabián Echegaray, presidente da empresa Market Analysis, especializada em pesquisas sobre sustentabilidade, com quem conversei nesta quarta-feira (5).

Echegaray é taxativo: o objetivo do Fórum é mobilizar academia, poder público e setor privado para que se possa, efetivamente, pensar num outro desenvolvimento. E a questão principal é reduzir o consumo.
"Vamos pensar em modelos econômicos que, ao mesmo tempo que garantam o modelo de negócio, desmaterializam as economias. De que maneira? Reaproveitando produtos já fabricados, por exemplo."

O pesquisador traz de volta à tona um tema que anda meio esquecido da mídia depois de muito se discutir a respeito durante a Rio+20. Trata-se da obsolescência programada, ou o encurtamento da funcionalidade dos aparelhos e subsequente estímulo da propaganda para se adquirir itens cada vez mais novos. Uma pesquisa feita este ano pela Market Analysis mostrou que, de uma amostra de 806 brasileiros residentes nas nove principais capitais do país, 93% concordam que "hoje os aparelhos eletrônicos duram bem menos do que no passado".

Outros 90% acham que "algumas empresas, quando lançam um produto novo, não colocam todas as inovações que poderiam nele, já prevendo o lançamento de uma nova versão', e 84% afirmam que "alguns eletrônicos são projetados para que durem menos tempo do que seria possível para incentivar que um novo produto seja comprado mais cedo". Mas só 67% admitem que se sentem levados a substituir os aparelhos eletrônicos com maior frequência do que gostariam.

Projetos
O Fórum se propõe a ser um espaço permanente para esses e outros debates. Mas, acima de tudo, pretende abrir caminho para pessoas que tenham projetos que possam contribuir e desenhar outros modelos civilizatórios, visando a um consumo e produção mais conscientes.

Conversei também com Rita Afonso, pesquisadora do Laboratório de Tecnologias e Desenvolvimento Social (LTDS), que juntamente com o professor Roberto Bartholo foi convidada a apresentar um projeto em Arequipa. Rita aplaude a ideia de ter se criado esse espaço do Fórum focado na América Latina: "Acho importante que se faça uma rede onde os contextos sociopoliticoeconomicos sejam mais parecidos. Se não for assim, o que acaba acontecendo é que se fica muito preso ao que é produzido pelos países do Hemisfério Norte, uma realidade completamente diferente da nossa", disse ela.

A equipe do LTDS apresentou dois projetos. O primeiro sugere que a rede formada pelo Fórum, que na América Latina recebe o nome de Fórum Latinoamericano de Iniciativas e Pesquisas sobre Consumo e Produção Sustentável, comece a influenciar o ensino do marketing nas faculdades de administração do país. Rita explica o motivo da preocupação com este segmento:

"Temos poucos autores ponta de linha nessa área e o marketing, além de ser uma disciplina toda desenhada na metade do século passado, ou seja, já obsoleta, desdobrou-se a partir da necessidade americana de ocupar a indústria do pós-Guerra. É uma disciplina construída a partir dessa visão da guerra, onde o concorrente é o inimigo e o foco é o que se faz para destruir o inimigo. Passa muito longe da discussão atual da não-violência. Precisa de uma revisão profunda porque tanto os profissionais de marketing quanto os publicitários estão ensinando a construir ou fortalecer uma visão de mundo que já está mais do que provado que é insustentável."

O outro projeto visa a considerar as questões imateriais na área do consumo consciente. O conceito de bem estar social sendo substituído por situações inovadoras, inventivas, criativas, ligadas ou não à economia, valorizando estilos de vida sustentáveis.

"Inovações criadas por jovens da periferia e de favelas ligadas à produção imaterial, de serviço, com cultura, identidade e protagonismo da juventude desses lugares. Lá no Laboratório discutimos muito sobre isso, mas sem encontrar eco no campo da produção e do consumo. Geralmente, quando se fala em estilo de vida sustentável, o que se pensa é em eficiência energética, mitigação etc. Não na captura da cultura desses territórios periféricos, coisa que tem muito mais a ver com a América Latina do que com países ricos do Hemisfério Norte", disse Rita Afonso.

O formato proposto pelos pesquisadores da Coppe do Rio de Janeiro é que a universidade vá à sociedade, às cidades, propondo ferramentas para uma participação maior, entregando um novo formato para a municipalidade. Isso realmente pode fazer toda diferença.

Economia compartilhada
Comentei nesse post sobre a atuação de uma única empresa na mitigação de emissões de carbono das Olimpíadas do Rio de Janeiro, opinando sobre a necessidade de diversificar os atores no debate socioeconomicoambiental. Echegaray fala sobre economia compartilhada, sobre jogar luz em cima desse tipo de iniciativas. E cita como exemplo o sistema de compartilhamento do aplicativo Airbnb (veja aqui, em inglês) que propõe uma economia digital compartilhada. Comenta ainda que é preciso neutralizar forças que ainda consideram a obsolescência programada como um padrão.

Uma possibilidade de se pensar a solução é através desse tipo de Fórum, acredita ele, cujos membros participantes conseguem pressionar governos a fazer legislações como a nossa Política Nacional de Resíduos Sólidos. "No Brasil a legislação é brilhante, mas a implementação é pífia", diz ele.

E já que falamos sobre consumo sustentável, não custa citar aqui duas notícias recentes publicadas no "Valor Econômico". A primeira é desta quarta: cartões de crédito e débito, considerados práticos e eficientes, movimentaram R$ 853 bilhões no ano passado, colocando o Brasil como o terceiro país em número de transações. No dia anterior, a notícia era de que, talvez não por acaso, as fabricantes das máquinas Rede e Cielo, que recebem pagamentos eletrônicos, decretaram o fim da exclusividade que limitava a aceitação de algumas marcas de cartões.

Tudo para facilitar o consumo. Torna a vida mais prática, sem dúvida, mas tanto conforto e bem-estar merece, ao menos, uma dose extra de reflexão.

*Foto: Pat Carter/AP
http://g1.globo.com/natureza/blog/nova-etica-social/post/rede-quer-abrir-caminho-para-projetos-de-consumo-consciente-na-america-latina.html

Cuidado com softwares que prometem 'acelerar' o PC ou celular


Você já visitou alguma página na web que abriu uma janela "pop-up" ou tenha um anúncio de um software que promete melhorar o desempenho do computador? Em muitos casos, esses softwares são má notícia - fraudes que apenas instalam mais lixo no computador em vez de melhorar o desempenho. Essa não é uma prática nova, mas ela continua comum e, ainda, ganhou adaptações para tablets e celulares: apps que prometem melhorar o desempenho do celular também estão por aí.

Uma variação do golpe se disfarça de software antivírus ou anti-spyware, fazendo uma "checagem" no computador, encontrando mil problemas e pedindo que seja feita a compra da licença para prosseguir com a limpeza. A misteriosa "limpeza de registro" também é um tema comum.

Existem, sim, maneiras de melhorar acelerar o PC ou certas tarefas no celular. O problema é saber quando um software realmente cumprirá o prometido ou quando ele apenas instalará outros programas indesejados ou, pior, apresentará estatísticas falsas de desempenho para que você compre o software pensando que ele pode fazer um "milagre" em seu computador.
Há, porém, alguns detalhes fáceis de observar. Os programas fraudulentos normalmente não explicam precisamente como fazem para acelerar seu PC ou celular. Além disso, não é oferecido um período de testes de 30 dias, por exemplo. Em vez disso, apenas é feita uma análise identificando os problemas existentes, dizendo que é preciso pagar para fazer a limpeza ou melhoria de desempenho.

Explicando melhor: existem vários softwares que são chamados de "antivírus falsos". Esses programas, às vezes instalados sem autorização, tentam assustar o usuário até que o programa seja comprado para realizar uma "limpeza", que não existe.

No caso de softwares que prometem acelerar o PC, eles normalmente não fazem nada que realmente melhora o desempenho. Aplicativos gratuitos, como o CCleaner, realizam o mesmo tipo de limpeza, removendo arquivos temporários e outros dados desnecessários. Não haverá, porém, uma melhora significativa no desempenho do PC apenas com isso. A chamada "limpeza do registro" às vezes impressiona, detectando milhares de "entradas inválidas". No entanto, no âmbito do registro do Windows, isso não é muita coisa.

Softwares que ajustam configurações do hardware para realmente acelerar o PC costumam ser fornecidos pelo fabricante do equipamento. Esse procedimento, chamado de "overclock", precisa ser feito com cuidado. Uma configuração incorreta pode deixar o computador instável ou fazer com que ele aqueça muito, prejudicando o funcionamento. Esses softwares de overclock são normalmente gratuitos, mas já existem alguns que são pagos (o fabricante vende o hardware com uma trava para limitar a capacidade, e o software faz o destravamento como um "upgrade" do hardware).

No celular também existe a possibilidade de realizar overclock, com os mesmos riscos. Isso é possível no Android e em geral necessita do acesso "root".

Existem, infelizmente, alguns softwares legítimos que seguem a mesma receita das fraudes, exigindo pagamento para fazer uma limpeza depois de uma análise nada favorável. Essa é uma prática ruim, porque impede você de realmente saber se o software fará alguma diferença no seu computador. Na dúvida, evite.

Dicas
Fique atento:

1. De modo geral, não acredite em softwares que prometem melhorar o desempenho do computador, a não ser que o programa mencione claramente o que faz - por exemplo, se ele fornece uma maneira amigável de desativar serviços do Windows ou gerenciar os softwares que são iniciados com o sistema. Isso sim pode ajudar a deixar o computador mais rápido.

2. Não se impressione com números de "problemas" encontrados por softwares de limpeza de registro, cookies e coisas do gênero.

3. A maneira como o software oferece seu período de testes pode ser um bom indicativo da qualidade. O ideal é o teste por período, no qual você pode aproveitar todos os recursos do software.

4. Para realizar a limpeza básica no Windows, use o programa CCleaner, que é gratuito.

http://g1.globo.com/tecnologia/blog/seguranca-digital/post/cuidado-com-softwares-que-prometem-acelerar-o-pc-ou-celular.html